Texto do professor Marcos Rodrigues

Eu estava apenas cumprindo ordens

“Tarefeiros”

Em 1945 o mundo começou a conhecer a extensão do horror do Holocausto. Iniciaram-se as prisões. Dos guardas dos campos de extermínio aos ministros do reich. A todos foi feita a mesma pergunta: Você sabia o que estava acontecendo? E todos responderam que sim. Você participou? E todos responderam que sim. Por quê? A resposta foi única para todos os escalões: Eu estava cumprindo ordens. Todos se isentaram da responsabilidade alegando que nada poderiam fazer sozinhos contra o sistema e que não possuíam autoridade para mudar nada. Não posso deixar de traçar um paralelo com a atual escola pública carioca.
Ora na rede pública carioca de ensino disseminou-se o hábito de se dizer que nós, profissionais da educação, somos tarefeiros. Ou seja, não nos cabe questionar ou discutir aquilo que deve ser feito. Apenas fazê-lo. Que tipo de profissional seria este? Aquele que executa qualquer ordem independente das suas conseqüências? Ou aquele que não considera a responsabilidade social, ideológica e jurídica do ato a ser cumprido? Na verdade, não somos “tarefeiros”. Somos cidadãos politicamente responsáveis, eticamente críticos e moralmente passíveis de questionamentos de nossos atos. Não podemos nos escusar e nos esconder sob a imoral desculpa de que “não concordo, mas a ordem veio de cima”. Que tipo de pessoas nos tornaremos se nos resumirmos a ouvir chefes irresponsáveis que desmontam a coisa pública por razões que não são claras e ainda assim acatamos decisões ilegítimas e imorais?
Parece-me que o principal objetivo deste tipo de declaração – somos tarefeiros – é alienar o ser político. É tentar convencê-lo de que o bom servidor é aquele que executa tudo que lhe é mandado sem criar dificuldades à gestão; de que nada do que está sendo feito é de sua responsabilidade, pois ele apenas cumpre determinações de seus chefes hierárquicos; e que tentar mudar este quadro sozinho resultaria apenas em seu próprio prejuízo funcional e individual sem que nada seja realmente mudado.
Assim como no Holocausto, um dia a extensão da tragédia que ora se agiganta em nossas escolas, e em nossa educação, será do conhecimento de todos. A posteridade julgará a todos. A todos nós, profissionais da educação municipal carioca, será perguntado se sabíamos do que estava a acontecendo. Se sabíamos que milhares de crianças deixam a escola pública todos os anos sabendo pouco ou quase nada? Que pouco ou nada se distinguem de analfabetos? Que são iludidos com cerimônias, festas e homenagens, mas que terão um papel servil na sociedade visto que não tiveram uma instrução decente para exercerem outros papéis?
Aos “tarefeiros” é impingido um material pedagógico de qualidade menor; são impostos projetos de aceleração e de correção de relação série/idade; são enfiada garganta abaixo fundações e institutos; e são entregues “kits” que de nada servem.

Pois então, antes que eu seja confundido com um soldadozinho qualquer que executa tarefas sem sequer parar e pensar no seu ato, quero deixar uma coisa bem clara: NÃO SOU TAREFEIRO! SOU UM CIDADÃO CRÍTICO E RESPONSÁVEL. CONSCIENTE DA IMPORTÂNCIA DE CADA ATO QUE EU TOME DURANTE A MINHA EXISTÊNCIA. SOU UM SER HUMANO DECENTE E ÉTICO. CUMPRO MINHAS RESPONSABILIDADES PROFISSIONAIS ATÉ O LIMITE DA MORALIDADE E DO RESPEITO AO OUTRO. NÃO TOMAREI ATITUDES QUE PREJUDICAM COLEGAS DE DÉCADAS SIMPLESMENTE POR QUE ME FOI ORDENADO. NÃO ASSISTIREI AO MASSACRE DOS MEUS IGUAIS SENTADO ATRÁS DE UMA MESA E ALEGANDO QUE INFELIZMENTE NADA POSSO FAZER. NÃO SEREI APENAS UM CARRASCO EM UM CAMPO DE EXTERMÍNIO QUE ACREDITA ESTAR REALIZANDO SUAS “TAREFAS”.
Continuo a conclamar a todos que não acreditam na seriedade da atual gestão de nossas escolas a abandonarem o medo e solidarizarem com todos os nossos colegas que estão sendo perseguidos. Façamos apenas o que a LEI determina e o que as nossas consciências permitem. Quando a história nos julgar não seremos nós a dizer “eu estava apenas cumprindo ordens”.

Professor Marcos Luiz Freitas Rodrigues

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