Texto do professor Vitor Arantes enviado ao jornal O Globo

A respeito da reportagem sobre as ações da prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, algumas considerações. No Brasil, foram séculos descaso com a EDUCAÇÃO. Somente a partir do momento em que se tornou um dever do Estado (a partir de 1930) começamos a ver de modo mais efetivo a preocupação com a educação, tendo em vista que, se o governo determina em lei que a população a matricular seus filhos na escola, faz-se necessário que esse mesmo governo crie condições para isso. Assim vemos a rede de escolas públicas crescer. Assim, também, percebemos que a política de criação de prédios escolares não é nova. Ela, porém, não basta. Como também não basta garantir permanência. É necessário que acesso e permanência estejam aliados à qualidade. Atualmente vemos uma grande preocupação com o “accountability“, revelando uma preocupação com dados, metas, exames. Sem discutir a importância ou não desses elementos, acredita-se que eles podem nos revelar o cenário da educação. Reparem que “podem”. Não revelam. Ou pelo menos não revelam com exata dimensão a situação. Mas realmente podem ajudar e entender um pouco das necessidades da “ponta da lança”: A ESCOLA. É lá que as “coisas” acontecem (ou não). É necessário associar a qualquer política que priorize a qualidade do ensino a uma política de acompanhamento da escola. Não um acompanhamento ao longe, por meio de coleta de dados. Escola NÃO é fábrica. É necessário que quem esteja à frente das políticas de educação sejam pessoas que entendam de EDUCAÇÃO, de ESCOLA, de PROFESSOR, de ALUNO, de FAMÍLIA e conjugue tudo isso com desenvolvimento do país (que deve estar associado ao bem-estar da população). Pessoas com compromisso político com o país. Reparem mais uma vez: compromisso político, não compromisso político-partidário, que coloca questões pessoais ou de pequenos grupos acima dos desejos e necessidades da maioria.

Uma das formas de avaliarmos a política educacional da cidade do Rio de Janeiro é o acompanhamento dos alunos no ensino médio, já que terminam a etapa do ensino fundamental, aos cuidados das prefeituras, e seguem para o ensino médio, aos cuidados dos governos estaduais. Dados que são usados para “revelar” a qualidade em ascensão do ensino carioca não “batem” com os dados que revelam um ensino médio de baixo rendimento. Não se pode pensar no aluno de modo pontual nessa situação. O aluno de ensino médio tem uma bagagem acumulada de pelo menos nove anos de ensino fundamental, sem levar em consideração os anos que possa ter passado na educação infantil.

Afinal, onde está o problema? No ensino médio? Na educação fundamental? Ou, ainda, na educação infantil?

Não adianta pensar nessa ou naquela questão; por a culpa aqui ou ali; nesse ou naquele elemento de modo descontextualizado. O cenário é complexo e não há fórmula de sucesso. Acredite: não há! O que “serve” aqui pode “não servir” ali. É necessário ouvir mais a realidade, aproximar-se dela, chamar-lhe para ouvi-la e dá-lhe a palavra, sem autoritarismo, sem vaidades. Mas com atitude, com cumplicidade, com verdade, com racionalidade, mas também com a sensibilidade necessária de quem trabalha “com gente” e se preocupa em “formar gente”.
Vitor Arantes

 

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